De quando a GM brasileira teve seu próprio hotel

15 jul

Boa leva de executivos do setor automotivo brasileiro apóia-se na já larga vivência das quatro grandes montadoras no País para questionar, não sem certa dose de razão, planos aparentemente megalômanos das novas fabricantes que estão prestes a se instalar por aqui.

A Hyundai, por exemplo, vive hoje, neste 2011, dentre outras, curiosa dificuldade que a General Motors já experimentou por estas bandas, porém há mais de cinquenta anos, nos idos de 1957.

Isso porque a montadora de origem sul-coreana está encontrando dificuldades para hospedar adequadamente os executivos da matriz e convidados que vão conhecer as obras da fábrica de Piracicaba: o máximo que a cidade oferece em termos de hotelaria moderna, por assim dizer, é uma pequena unidade do Ibis, rede global de hotéis econômicos. No evento de pedra fundamental realizado no local em fevereiro o problema chegou quase ao extremo: onde hospedar o vice-chairman, que vinha da Coréia do Sul? O jeito foi deixá-lo em São Paulo mesmo e levá-lo de helicóptero.

Caso semelhante viveu a GM naqueles anos 50, ainda que de forma bem mais acentuada devido ao contexto da época: simplesmente não havia rede hoteleira em São José dos Campos para receber executivos durante a construção e os primeiros anos da fábrica. A solução que a montadora deu à questão foi a mais direta possível: construiu seu próprio hotel, junto à planta – o Hotel GM.

Recepção, trinta quartos, restaurante, bar, salas de reunião, biblioteca, serviços de lavanderia e camareiras, enfim, como qualquer outro hotel – a diferença é que sua localização era dentro da própria fábrica.

Com o passar dos anos e o próprio desenvolvimento da cidade no entorno o uso do Hotel GM começou a mostrar-se desnecessário dentro de seu objetivo original. E em meados dos anos 90 nenhum hóspede mais ali se instalava – até que Sérgio Dal Poggetto entra na história.

Isso porque o executivo, na GM desde 1958, foi transferido da planta de São Caetano do Sul para a de São José dos Campos, na função de diretor da fábrica, por volta de 1995. A família, entretanto, preferia permanecer na cidade do ABC. Dal Poggetto, então, passava a maior parte da semana no Vale do Paraíba e o fim de semana em São Caetano. Morar aonde, na estadia semanal no Interior? A resposta veio rápida e quase óbvia, auxiliada ainda mais pelos três turnos de produção de então: no Hotel GM, oras.

Assim, ele passou a ser o único habitante do local. Trinta quartos à disposição – situação curiosa que perdurou por nada menos do que onze anos. É quase impossível não associar o caso ao filme O Iluminado, clássico cult de suspense-terror dos anos 80, do diretor Stanley Kubrick, baseado em livro de Stephen King: a história de um vigia de um grande hotel nas montanhas do Colorado, Estados Unidos, inacessível durante o inverno devido à neve. O isolamento total do personagem Jack Torrance, vivido por Jack Nicholson, acaba por levá-lo à loucura.

Mas ele garante: “minha história no Hotel GM não chegou nem perto disso”. Mas recorda: havia, sim, o boato de que o fantasma de um ex-funcionário perambulava pelos corredores do hotel à noite, fazendo com que as camareiras evitassem qualquer circulação no local depois do pôr-do-sol. Mas, belo dia, reunião foi até tarde da noite: quando todos foram embora o executivo retornou à sala para apagar as luzes, fazendo com que uma funcionária que limpava o local quase desmaiasse de susto – ela pensou que quem adentrava a sala era o fantasma. Dal Poggetto diverte-se: “Ou eu assustava o fantasma ou ele não existia mesmo, pois nunca o vi em todos esses anos por lá”.

Eram outros tempos, sem dúvida: o executivo recorda-se que internet pouco se havia ouvido falar e montar uma vídeo-conferência dava tanto trabalho, com tantos equipamentos, que era mais fácil os participantes deslocarem-se fisicamente até São José dos Campos.

Hoje Dal Pogetto está aposentado e o Hotel GM não funciona mais, apesar de fisicamente estar lá, em pé, firme e forte: o local é utilizado atualmente para arquivo, treinamento, eventos e outros fins.

Anúncios

8 Respostas to “De quando a GM brasileira teve seu próprio hotel”

  1. samuel 15 de julho de 2011 às 22:10 #

    0.o….história bem legal!!!!

  2. Jefferson 16 de julho de 2011 às 00:30 #

    Sensacional relato nunca tinha ouvido falar na existência deste HOTEL GM. Parabéns mais uma vez à equipe dos produtores do CARROCULTURA.

  3. Silva 16 de julho de 2011 às 10:54 #

    Bem como trabalho na rede de concessionarias Chevrolet, sempre ouvimos historias do hotel Gm.

  4. Marcão 16 de julho de 2011 às 19:00 #

    É quase impossível não associar o caso ao filme O Iluminado.[2]

  5. Filipe Steininger 17 de julho de 2011 às 21:42 #

    Gostei da historia mas acho que ainda deveria ser usado com hotel.

  6. Cristiano Correa Molinari 17 de julho de 2011 às 23:07 #

    Muito interessante. Mais uma coisa que nem imaginava saber sobre a GMB.

    Abraços
    Kiko Molinari

  7. Anderson 18 de julho de 2011 às 09:45 #

    Interessante mesmo.. parabéns pelo garimpo, seria interessante se alguém consseguisse fotos do interior também. Vejo este problema em nossa empresa que é uma multinacional instalada no interior do RS, a Direção não se contenta com qualquer hotel ai tem que deslocar para outra cidade.

  8. Pedro Henrique 19 de agosto de 2011 às 22:28 #

    Artigo muito interessante. Parabéns ao pessoal do Carro Cultura pela coleta de informações.

Comentar no #CarroCultura!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: